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quinta-feira, outubro 28, 2004

Ainda as juventudes partidárias

Apesar da dureza das palavras que assinei sobre as juventudes partidárias confesso que o tom das reacções foi para mim uma enorme surpresa. Recebi várias mensagens e telefonemas mas gostaria de destacar este blogue onde o assunto se discutiu com autoridade e extraordinária franqueza.
A Beatriz recorre ao argumento da formação cívica e chama a atenção para a qualidade dos quadros. O Alcoutim responde-lhe com a possibilidade dos jovens integrarem outras organizações provavelmente mais úteis para os próprios e para a sociedade. Compreendo a Beatriz e aceito o argumento. É claro que existe gente boa, e é claro que no meio das centenas de organismos das juventudes partidárias há quem faça bom trabalho. Mas a questão que coloquei ia um pouco além disso. Limitei-me a aplicar um simples princípio de custo/benefício e a constatar que o resultado que se obtinha era francamente negativo.
Que a Beatriz me perdoe a maldade, mas não consigo resistir a pegar numa frase que diz muito sobre esta nossa conversa: “podemos ambicionar fazer política ‘à séria’”. Querida Beatriz, esse raciocínio é um vício, é o erro que tornou as jotas em organizações burocratizadas mas vazias de conteúdo. Os jovens podem e devem fazer política “à séria”. O único problema é que, nesse prisma, a existência de juventudes partidárias são um obstáculo. Porquê? Porque, por defeito, se tornam redutoras. Repito a pergunta original: serão as Jotas necessárias?
Peço que repare agora no exemplo do Bloco de Esquerda que, sem recurso a este tipo de mecanismos, consegue o pleno envolvimento dos jovens – talvez mais pleno e producente que noutros partidos – através da sua integração na estrutura principal da organização.
De resto, só posso desejar os maiores sucessos para o vosso trabalho. Julgo saber que a consciência política, ou melhor, cívica, é mais do que nunca necessária. Penso que o grande inimigo da nossa sociedade já não é esquerda mais ou menos radical, nem sequer o fundamentalismo. O grande inimigo da nossa sociedade é a indiferença. Talvez por isso tenha escrito aquele poste.

Um abraço,

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: Caro Carlos, folgo em saber que a sua memória não é curta. Claro que andei pelas juventudes partidárias, Poderia eu ter escrito um texto assim sem ter tido essa experiência? Claro que andei nas guerras, nas conspirações e digo sem modéstia que na escola dos maus vícios dificilmente terá havido melhor aluno. Curiosamente, desses tempos onde se aplicavam as velhas regras do pancrácio, a melhor coisa que ficou foram os adversários. Explico, anos mais tarde, quando os reencontrei fora da política consegui transformar os meus inimigos de ontem nos amigos de hoje. Estranho, não? Por isso mesmo lhe digo que a regra da excepção é a mais pervertida de todas. Desejo-lhe o maior dos sucessos para o seu projecto e noutra oportunidade terei todo o gosto em complementar a sua memória com as crónicas das minhas aventuras e desventuras no terceiro andar.

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