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terça-feira, setembro 28, 2004

Lamento desiludir, mas...

Algures na blogosfera apanhei o seguinte comentário ao Acidental: Faz-me acreditar que há muita gente ainda mais alucinada que eu. Basta ler os "contribuintes" para esse blog para entender uma coisa... Nenhum deles teve que trabalhar na vida para ter o que quer que fosse... acho eu... é daquelas coisas... Se o meu nome se parecesse com algum nome de banco ou de champanhe... eu não me importava. Mas de certeza que escondia a minha arrogância (para não dizer coisas piores) de toda a gente.
Por ser igual a muitos outros não lhe devia ter dado qualquer importância, mas exactamente por ser igual a muitos outros talvez mereça o destaque e a importância que lhe estou a dar. O pequeno excerto aqui transcrito é a prova de que o debate ideológico está viciado por estes pequenos equívocos e preconceitos. É neles que colhe muito do seu alimento.
Sei que vou desiludir muitos leitores e outros crentes da luta de classes mas aproveito o momento para alguns esclarecimentos prévios. Sou de direita e mesmo assim não sou rico. Sou conservador mas não defendo o regresso da escravatura. Sou tradicionalista mas não quero que os pobres morram de fome. Sou católico e nem por isso reclamo o regresso da inquisição. Acredito na propriedade privada e mesmo assim trabalho para ganhar a vida desde os meus catorze anos. Não gosto de nenhuma guerra, odeio a prepotência, abomino a vaidade e até prova em contrário não me considero uma besta completa. Sou arrogante mas não pretendo para mim o exclusivo de uma vida difícil. Ao contrário do que possam pensar, ser de direita não implica a idolatria do capital e o repúdio do valor da liberdade. Ser de direita não implica o apoio à segregação dos palestinianos, a criação de mecanismos estatais de repressão das massas e o castigo das mulheres que cometem o aborto. De resto, ainda sou ingénuo ao ponto de acreditar que ouvir o que os outros nos têm para dizer é um extraordinário exercício intelectual. Deixo por isso uma pequena pergunta: neste segundo milénio, quando a igualdade de oportunidades é um facto, será normal condicionar o debate ideológico com ideias feitas do tempo da revolução francesa?

[Rodrigo Moita de Deus]

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